QUÍMICA ORGÂNICA (Vinícius de Moraes)
Há mulheres altas e mulheres baixas;
mulheres bonitas e mulheres feias; mulheres gordas e mulheres magras; mulheres
caseiras e mulheres rueiras; mulheres fecundas e mulheres estéreis; mulheres
primíparas e mulheres multíparas; mulheres extrovertidas e mulheres
inconsúteis; mulheres homófagas e mulheres inapetentes; mulheres suaves e
mulheres wagnerianas; mulheres simples e mulheres fatais; - mulheres de toda
sorte e toda sorte de mulheres no nosso mundo de homens. Mas, do que pouca
gente sabe é que há duas categorias antagônicas de mulheres cujo conhecimento é
da maior utilidade, de vez que pode ser determinante na relação desses dois
sexos que eu, num dia feliz, chamei de "inimigos inseparáveis". São
as mulheres "ácidas" e as mulheres "básicas", qualificação
esta tirada à designação coletiva de compostos químicos que, no primeiro caso,
são hidrogenados, de sabor azedo; e no segundo, resultam da união dos óxidos
com a água e devolvem à tintura do tornassol, previamente avermelhada pelos
ácidos, sua primitiva cor azul.
Darei exemplos para evitar que os ínscios e levianos, ao se deixarem levar pela mania de classificar, que às vezes resulta de uma teoria paracientífica, cometam injustiças irreparáveis. Pois a verdade é que mulheres que podem parecer em princípio "ácidas", como as louras (conf. com a expressão corrente: "branca azeda", etc.), podem apresentar tipos da maior basicidade. Não é possível haver mulher mais "básica" que Marylin Monroe,* por exemplo; enquanto que Grace Kelly, que muita gente pode tomar por "básica", é a mulher mais cítrica dos dias que correm. Podia-se fazer com Grace Kelly a maior limonada de todos os tempos, e nem todo o açúcar de Cuba seria capaz de adoçá-la.
De um modo geral, a mulher "ácida" é sempre bela, surpreendente mesmo de beleza. É como se a Natureza, em sua eterna sabedoria, procurasse corrigir essa hidrogenação excessiva com predicados que a façam perdoar, senão esquecer pelos homens. Porque uma coisa eu vos digo: é preciso muito conhecimento de química orgânica para poder distinguir uma "básica" ou uma "ácida" pela cara. A mulher "ácida" tem uma consciência intuitiva da sua química, e não é incomum vê-la querer passar por "básica" graças ao uso de maquilagem apropriada e outros disfarces próprios à categoria inimiga.
Como um homem prevenido vale por dois, dou aqui, por alto, noções geográficas e fisiológicas dos dois tipos, de modo que não chupe tamarindo aquele que gosta de manga, e vice-versa. A vol d'oiseau se pode dizer que as regiões escandinavas, certas regiões balcânicas e a América do Norte são infestadas de mulheres "ácidas", no caso da América, sobretudo o Sul e Middlewest, onde há predominância do tipo one hundred per cent American. Ingrid Bergman é uma "ácida escandinava" típica e é preciso ir procurar uma Greta Garbo para achar a famosa exceção comum a toda a regra. As Ilhas Britânicas em si não são "ácidas"; mas há que ter cuidado com certas regiões da Escócia e da Irlanda, onde o limão come solto. Na França, com exceção de Paris e Île-de-France, e naturalmente da Côte d'Azur, reina uma certa acidez, sobretudo na Bretanha, Alsácia e Normandia. A Itália é "básica", tirante, talvez, o Veneto e a Sicília. Os Países Baixos são o que há de mais "ácido", Flandres ainda mais que a região flamenga. A Alemanha é à base do araque. Há, aí, que ir mais pelo padrão psicofisiológico que pelo geográfico.
Desconfie-se, em princípio, de mulheres com muita sarda ou tache-de-rousseur. Há exceções, é claro; mas vejam só Betty Davis, * * que é de dar dor na dentina. É bom também andar um pouco precavido com mulheres, louras ou morenas, levemente dentuças. Acidez quase certa.
Felizmente, a grande maioria é constituída de "básicas", para bem de todos e felicidade geral da nação. Sobretudo no Brasil, felizmente liberto, desde alguns meses, da sua "ácida número um" - aliás de outras plagas, diga-se, o peito inchado do mais justo orgulho nacional.
* O autor congratula-se consigo mesmo de haver escrito, há dez anos, urna verdade que resulta em tão graciosa homenagem póstuma à grande estrela americana.
**Poderia ser substituída, atualmente, pela atriz Doris Day
Darei exemplos para evitar que os ínscios e levianos, ao se deixarem levar pela mania de classificar, que às vezes resulta de uma teoria paracientífica, cometam injustiças irreparáveis. Pois a verdade é que mulheres que podem parecer em princípio "ácidas", como as louras (conf. com a expressão corrente: "branca azeda", etc.), podem apresentar tipos da maior basicidade. Não é possível haver mulher mais "básica" que Marylin Monroe,* por exemplo; enquanto que Grace Kelly, que muita gente pode tomar por "básica", é a mulher mais cítrica dos dias que correm. Podia-se fazer com Grace Kelly a maior limonada de todos os tempos, e nem todo o açúcar de Cuba seria capaz de adoçá-la.
De um modo geral, a mulher "ácida" é sempre bela, surpreendente mesmo de beleza. É como se a Natureza, em sua eterna sabedoria, procurasse corrigir essa hidrogenação excessiva com predicados que a façam perdoar, senão esquecer pelos homens. Porque uma coisa eu vos digo: é preciso muito conhecimento de química orgânica para poder distinguir uma "básica" ou uma "ácida" pela cara. A mulher "ácida" tem uma consciência intuitiva da sua química, e não é incomum vê-la querer passar por "básica" graças ao uso de maquilagem apropriada e outros disfarces próprios à categoria inimiga.
Como um homem prevenido vale por dois, dou aqui, por alto, noções geográficas e fisiológicas dos dois tipos, de modo que não chupe tamarindo aquele que gosta de manga, e vice-versa. A vol d'oiseau se pode dizer que as regiões escandinavas, certas regiões balcânicas e a América do Norte são infestadas de mulheres "ácidas", no caso da América, sobretudo o Sul e Middlewest, onde há predominância do tipo one hundred per cent American. Ingrid Bergman é uma "ácida escandinava" típica e é preciso ir procurar uma Greta Garbo para achar a famosa exceção comum a toda a regra. As Ilhas Britânicas em si não são "ácidas"; mas há que ter cuidado com certas regiões da Escócia e da Irlanda, onde o limão come solto. Na França, com exceção de Paris e Île-de-France, e naturalmente da Côte d'Azur, reina uma certa acidez, sobretudo na Bretanha, Alsácia e Normandia. A Itália é "básica", tirante, talvez, o Veneto e a Sicília. Os Países Baixos são o que há de mais "ácido", Flandres ainda mais que a região flamenga. A Alemanha é à base do araque. Há, aí, que ir mais pelo padrão psicofisiológico que pelo geográfico.
Desconfie-se, em princípio, de mulheres com muita sarda ou tache-de-rousseur. Há exceções, é claro; mas vejam só Betty Davis, * * que é de dar dor na dentina. É bom também andar um pouco precavido com mulheres, louras ou morenas, levemente dentuças. Acidez quase certa.
Felizmente, a grande maioria é constituída de "básicas", para bem de todos e felicidade geral da nação. Sobretudo no Brasil, felizmente liberto, desde alguns meses, da sua "ácida número um" - aliás de outras plagas, diga-se, o peito inchado do mais justo orgulho nacional.
* O autor congratula-se consigo mesmo de haver escrito, há dez anos, urna verdade que resulta em tão graciosa homenagem póstuma à grande estrela americana.
**Poderia ser substituída, atualmente, pela atriz Doris Day
OUTRA ANÁLISE
Felizmente, a grande maioria é
constituída de "básicas", para bem de todos e felicidade geral da
nação. Sobretudo no Brasil, felizmente liberto, desde alguns meses, da sua
"ácida número um" - aliás de outras plagas, diga-se, o peito inchado
do mais justo orgulho nacional.
*No texto, o autor faz criticas às mulheres ácidas, comparando-as com as substâncias encontradas na Química.O autor faz referência à mulher ácida (aquele tipo de mulher que é mais complicada, mais difícil de engolir) e à mulher básica (aquela que é mais fácil de ser decifrada). Mas antes de tudo ele faz uma listagem de vários tipos de mulheres que estão englobadas em diversas categorias.
Marcus Vinícius da Cruz e Mello Moraes nasceu em 1913 no bairro da Gávea, no Rio de Janeiro. Mudou-se com a família para o bairro de Botafogo em 1916, onde iniciou os seus estudos na Escola Primária Afrânio Peixoto, onde já demonstrava interesse em escrever poesias.
Poeta essencialmente lírico, também conhecido como um boêmio inveterado, fumante e apreciador deuísque. Era também conhecido por ser um grande conquistador. Casou-se por nove vezes ao longo de sua vida. Sua obra é vasta, passando pela literatura, teatro, cinema e música. No campo musical teve como principais parceiros: Tom Jobim, Toquinho, Baden Powell, João Gilberto, Chico Buarque e Carlos Lyra que tiveram uma grande influência na Bossa Nova.
Por:Gabriel Freir
*No texto, o autor faz criticas às mulheres ácidas, comparando-as com as substâncias encontradas na Química.O autor faz referência à mulher ácida (aquele tipo de mulher que é mais complicada, mais difícil de engolir) e à mulher básica (aquela que é mais fácil de ser decifrada). Mas antes de tudo ele faz uma listagem de vários tipos de mulheres que estão englobadas em diversas categorias.
Marcus Vinícius da Cruz e Mello Moraes nasceu em 1913 no bairro da Gávea, no Rio de Janeiro. Mudou-se com a família para o bairro de Botafogo em 1916, onde iniciou os seus estudos na Escola Primária Afrânio Peixoto, onde já demonstrava interesse em escrever poesias.
Poeta essencialmente lírico, também conhecido como um boêmio inveterado, fumante e apreciador deuísque. Era também conhecido por ser um grande conquistador. Casou-se por nove vezes ao longo de sua vida. Sua obra é vasta, passando pela literatura, teatro, cinema e música. No campo musical teve como principais parceiros: Tom Jobim, Toquinho, Baden Powell, João Gilberto, Chico Buarque e Carlos Lyra que tiveram uma grande influência na Bossa Nova.
Por:Gabriel Freir
Uma 3ª
Análise
Vinicius
de Moraes - Antologia Poética (2): Análise da obra
Devido a certas semelhanças, Bach pode nos levar a
Vinicius.
Foi em Eisenach, pequena cidade da Turíngia, na Alemanha central, que, em 1685, nasceu Johann Sebastian Bach. Ali passou os primeiros anos de sua infância, iniciou sua escolarização e recebeu as primeiras noções de música, tomando aulas de violino com o pai, Johann Ambrosius Bach - músico da corte municipal -, e de cravo e órgão, com o tio Johann Christoph.
Johann Sebastian era ainda uma criança quando deixou a cidade natal para percorrer os tortuosos caminhos que o levariam à imortalidade...
Quanto ao nosso poeta, foi em 1913, na cidade do Rio de Janeiro, que nasceu, em meio a um forte temporal, Marcus Vinícius da Cruz de Mello Moraes, filho de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, funcionário da Prefeitura, poeta (amigo deOlavo Bilac), violonista e cantor de modinhas, que iniciaria Vinicius na música. O tio mais moço, boêmio e seresteiro, também exerceu forte influência sobre ele. Além de sua mãe, Lydia Cruz, e o avô, que eram hábeis pianistas.
Como é possível notar, nascido no seio de uma família de músicos (e de poetas!), Vinicius, tal como Bach, terá forte presença dessa arte superior, que é a música, por toda sua vida.
Além dessas semelhanças, no mínimo curiosas, há algo maior que o liga ao mestre de Eisenach. Dentre os parceiros de Vinicius (...e eles não são poucos. Só para citar os mais conhecidos: irmãos Tapajós, Paulinho Soledade, Vadico, Pixinguinha,Adoniran Barbosa, Carlos Lyra, Baden Powell, Francis Hime, Villa-Lobos, Chico Buarque, Tom Jobim, Toquinho etc.), Bach foi o mais inusitado de todos porque, obviamente, já estava morto e jamais tomou conhecimento de tal negócio! Em 1961, a Banda do Corpo de Bombeiros fluminense gravou "Rancho das Flores", marcha-rancho com versos do poeta sobre tema de "Jesus, Alegria dos Homens", do compositor clássico alemão.
Vinicius de Moraes foi diplomata, músico, boêmio, advogado, crítico de cinema e, sobretudo, poeta, que se auto-intitulava o "branco mais preto do Brasil".
Um crítico certa vez disse que Vinicius era um homem plural, e que essa pluralidade era percebida nas várias atividades que o poeta desenvolveu, nos vários amores que teve (seus biógrafos afirmam que teve, oficialmente, 9 mulheres), e no próprio nome: Marcus Vinícius da Cruz de Mello Moraes.
Como diplomata, ele residiu em várias capitais do mundo. Além de formado em Direito, foi agraciado com a primeira bolsa do Conselho Britânico para estudar língua e literatura inglesas na Universidade de Oxford.
Foi em Eisenach, pequena cidade da Turíngia, na Alemanha central, que, em 1685, nasceu Johann Sebastian Bach. Ali passou os primeiros anos de sua infância, iniciou sua escolarização e recebeu as primeiras noções de música, tomando aulas de violino com o pai, Johann Ambrosius Bach - músico da corte municipal -, e de cravo e órgão, com o tio Johann Christoph.
Johann Sebastian era ainda uma criança quando deixou a cidade natal para percorrer os tortuosos caminhos que o levariam à imortalidade...
Quanto ao nosso poeta, foi em 1913, na cidade do Rio de Janeiro, que nasceu, em meio a um forte temporal, Marcus Vinícius da Cruz de Mello Moraes, filho de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, funcionário da Prefeitura, poeta (amigo deOlavo Bilac), violonista e cantor de modinhas, que iniciaria Vinicius na música. O tio mais moço, boêmio e seresteiro, também exerceu forte influência sobre ele. Além de sua mãe, Lydia Cruz, e o avô, que eram hábeis pianistas.
Como é possível notar, nascido no seio de uma família de músicos (e de poetas!), Vinicius, tal como Bach, terá forte presença dessa arte superior, que é a música, por toda sua vida.
Além dessas semelhanças, no mínimo curiosas, há algo maior que o liga ao mestre de Eisenach. Dentre os parceiros de Vinicius (...e eles não são poucos. Só para citar os mais conhecidos: irmãos Tapajós, Paulinho Soledade, Vadico, Pixinguinha,Adoniran Barbosa, Carlos Lyra, Baden Powell, Francis Hime, Villa-Lobos, Chico Buarque, Tom Jobim, Toquinho etc.), Bach foi o mais inusitado de todos porque, obviamente, já estava morto e jamais tomou conhecimento de tal negócio! Em 1961, a Banda do Corpo de Bombeiros fluminense gravou "Rancho das Flores", marcha-rancho com versos do poeta sobre tema de "Jesus, Alegria dos Homens", do compositor clássico alemão.
Vinicius de Moraes foi diplomata, músico, boêmio, advogado, crítico de cinema e, sobretudo, poeta, que se auto-intitulava o "branco mais preto do Brasil".
Um crítico certa vez disse que Vinicius era um homem plural, e que essa pluralidade era percebida nas várias atividades que o poeta desenvolveu, nos vários amores que teve (seus biógrafos afirmam que teve, oficialmente, 9 mulheres), e no próprio nome: Marcus Vinícius da Cruz de Mello Moraes.
Como diplomata, ele residiu em várias capitais do mundo. Além de formado em Direito, foi agraciado com a primeira bolsa do Conselho Britânico para estudar língua e literatura inglesas na Universidade de Oxford.
O que é uma antologia
Antes de qualquer coisa é preciso definir o que vem a ser
"antologia". Antologia significa, etimologicamente, "coletânea
de flores"; o termo remete à ideia de escolha, coleção. Sendo assim,
antologia é uma coleção de trabalhos literários; neste caso, coleção de
trabalhos poéticos.
A importância de se ler uma obra como esta ("Antologia Poética") está no fato de que estamos tendo contato com uma seleção de poemas feita pelo próprio autor.
A importância de se ler uma obra como esta ("Antologia Poética") está no fato de que estamos tendo contato com uma seleção de poemas feita pelo próprio autor.
A divisão da obra de Vinicius
A obra poética de Vinícius de Moraes é
tradicionalmente dividida pela crítica em três fases distintas.
A primeira inicia-se em 1933 e abrange os livros O caminho para a distância (1933);Forma e exegese (1935); Ariana, a mulher (1936). Nesse período encontramos um poeta místico, que escrevia versos longos, de tom bíblico-romântico, de espiritualidade católica e visionária. O próprio poeta caracterizou esta fase como "o sentimento do sublime". Na "Advertência" à sua Antologia Poética ele afirmava que "a primeira [fase], transcendental, frequentemente mística, [era] resultante de sua fase cristã".
A segunda fase (ou como se costuma dizer: o segundo Vinicius) tem início emCinco Elegias, de 1943. O novo tom, a nova linguagem, as novas formas e temas, que vinham desde Novos poemas, de 1933, intensificam-se e diversificam-se nos livros posteriores - Poemas, sonetos e baladas (1946) e Novos poemas II (1959) -, em que se mostram tanto as formas clássicas (soneto de tradição camoniana e shakespeariana) quanto a poesia livre (em "A última elegia", os versos têm forma de serpente). O poeta sente-se à vontade para inventar palavras, muitas vezes bilíngues, ou praticar a oralidade maliciosa.
Por haver nessa fase uma renúncia à superstição e ao purismo fortemente presentes na primeira, bem como um direcionamento para uma atitude mais brincalhona e amorosa perante a poesia, essa segunda fase ficou conhecida como "O encontro do cotidiano pelo poeta".
Nessa passagem do metafísico para o físico, do espiritual para o sensual, do sublime para o cotidiano, o poeta retoma sugestões românticas (como lua, cidade, samba). Refugia-se no erotismo: há contemplação do amor, poemas "sobre a mulher" e adoração panteística da natureza. Compôs também poemas de indignação social, cujos exemplares são: "Balada dos mortos dos campos de concentração", "O operário em construção" e "A rosa de Hiroxima".
O terceiro Vinicius é o compositor, letrista e cantor. Autor de mais de trezentas músicas (como atesta seu Livro de letras, lançado postumamente, em 1991, onde estão mais de 300 letras de músicas de sua autoria), difundidas pelo mundo com o grande acontecimento cultural e musical que foi a bossa nova. Seus parceiros, como vimos, vão desde Bach a Toquinho.
Embora a crítica fizesse (faça) tal divisão, colocando de um lado o poeta e de outro o showman, Vinicius nunca concordou que houvesse diferença entre seus sambas e seus poemas escritos, pois para ele tudo era igual.
A primeira inicia-se em 1933 e abrange os livros O caminho para a distância (1933);Forma e exegese (1935); Ariana, a mulher (1936). Nesse período encontramos um poeta místico, que escrevia versos longos, de tom bíblico-romântico, de espiritualidade católica e visionária. O próprio poeta caracterizou esta fase como "o sentimento do sublime". Na "Advertência" à sua Antologia Poética ele afirmava que "a primeira [fase], transcendental, frequentemente mística, [era] resultante de sua fase cristã".
A segunda fase (ou como se costuma dizer: o segundo Vinicius) tem início emCinco Elegias, de 1943. O novo tom, a nova linguagem, as novas formas e temas, que vinham desde Novos poemas, de 1933, intensificam-se e diversificam-se nos livros posteriores - Poemas, sonetos e baladas (1946) e Novos poemas II (1959) -, em que se mostram tanto as formas clássicas (soneto de tradição camoniana e shakespeariana) quanto a poesia livre (em "A última elegia", os versos têm forma de serpente). O poeta sente-se à vontade para inventar palavras, muitas vezes bilíngues, ou praticar a oralidade maliciosa.
Por haver nessa fase uma renúncia à superstição e ao purismo fortemente presentes na primeira, bem como um direcionamento para uma atitude mais brincalhona e amorosa perante a poesia, essa segunda fase ficou conhecida como "O encontro do cotidiano pelo poeta".
Nessa passagem do metafísico para o físico, do espiritual para o sensual, do sublime para o cotidiano, o poeta retoma sugestões românticas (como lua, cidade, samba). Refugia-se no erotismo: há contemplação do amor, poemas "sobre a mulher" e adoração panteística da natureza. Compôs também poemas de indignação social, cujos exemplares são: "Balada dos mortos dos campos de concentração", "O operário em construção" e "A rosa de Hiroxima".
O terceiro Vinicius é o compositor, letrista e cantor. Autor de mais de trezentas músicas (como atesta seu Livro de letras, lançado postumamente, em 1991, onde estão mais de 300 letras de músicas de sua autoria), difundidas pelo mundo com o grande acontecimento cultural e musical que foi a bossa nova. Seus parceiros, como vimos, vão desde Bach a Toquinho.
Embora a crítica fizesse (faça) tal divisão, colocando de um lado o poeta e de outro o showman, Vinicius nunca concordou que houvesse diferença entre seus sambas e seus poemas escritos, pois para ele tudo era igual.
Escrito e
postado por: Jorge Viana de Moraes, Especial para a Página 3
Pedagogia & Comunicação 24/03/20 16h48
Extraído de: http://educacao.uol.com.br/disciplinas/portugues/vinicius-de-moraes---antologia-poetica-2-analise-da-obra.htm
Em 26/03/20 – 20:30
Poética– Poema de Manuel Bandeira
Estou farto do lirismo comedidoDo lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare
— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
Este poema belíssimo, de Manuel Bandeira — Estrela da Vida Inteira, Ed. Nova Fronteira, fone (021)286.78.22, Brasil — foram inspiração (e homenagem a ele) para Soares Feitosa, "in" Do Belo-Belo.
ANÁLISE DO POEMA
Desde a primeira leitura, percebe-se que a Poética tem
vínculos com a estética modernista. É possível reconhecer pela estrutura
poética a utilização de versos livres, de reiterações, de imagens que negam os
valores ultrapassados das estéticas anteriores, de supressão da pontuação, etc. Todas estas formas
traduzem a liberdade plena de forma, defendida pelos modernistas. O que
caracteriza o versolivrismo aqui
é uma mudança de atitude e também de crítica : a sílaba deixa de ser a unidade
de medida e a combinação de pausas e entoações passa a ser fator relevante.
Bandeira emprega várias imagens para
iniciar o processo de negação dos valores poéticos do passado e depois de
defesa de um lirismo
libertador; imagens que são modeladas
em linguagem cotidiana e que estão baseadas na associação destas idéias de modo
a despertar o interesse por uma atualização da inteligência artística . O poema
Poética de Manuel Bandeira é um dos paradigmas da estética modernista e uma das
mais conhecidas bandeiras de luta dos modernistas por esta atualização poética.
Podemos dividir o poema em duas macro partes: repulsa dos elementos normativos e da ordem que
transformam a arte em ato burocrático e pregação de um lirismo espontâneo, sem
censuras e repressões.
Leia a bela introdução do poeta ao deixar claro o caratér contestatório de seu poema através do uso de reiterações que marcam uma ruptura, um descontentamento com o tipo de lírica utilizada dado pela fastidiosa repetição do “estou farto”.
Estou farto do lirismo comedido ...
Estou farto do lirismo que pára ...
Estou farto do lirismo namorador...
Leia a bela introdução do poeta ao deixar claro o caratér contestatório de seu poema através do uso de reiterações que marcam uma ruptura, um descontentamento com o tipo de lírica utilizada dado pela fastidiosa repetição do “estou farto”.
Estou farto do lirismo comedido ...
Estou farto do lirismo que pára ...
Estou farto do lirismo namorador...
A atitude do poeta mostra-se mais subversiva quando retoma
novamente o “estou farto ... de todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo.” A utilização do pronome “todo” reforça a idéia de negação a tudo que não seja o
lirismo que não é libertação. Novamente, o poeta distancia-se dos valores
tradicionais e nega por completo as manifestações líricas que limitam a
liberdade poética com expressões como “abaixo os puristas” , “de resto não é lirismo”, “não
quero mais” .
Para expressar mais ainda sua insatisfação, o poeta incorpora
elementos estereotipados das estéticas anteriores para ironiza-las, utilizando
expressões científicas e imagens típicas do cotidiano moderno. As referências
aos “lirismo comedido e bem comportado” , “lirismo que
pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo” e “abaixo
os puristas” manifestam um
desagrado do poeta com relação às valores estéticos formais de composição,
típicos da estética parnasiana, no qual a rigidez controla a criação poética e
faz com o que o poeta pare para verificar um vocábulo no dicionário . O lirismo
contido e racional como uma fórmula matemática que o autor critica também ao
revelar que este lirismo “será
contabilidade tabela de co-senos” e
um lirismo como forma já pré-estabelecida, sem criatividade “... secretário do amante exemplar com cem modelos de
cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.” Esta enumeração sem vírgulas e a utilização da
abreviatura têm o objetivo de ironizar , já que o poeta suprime as demais
enumerações de tipos de lirismos automatizados que existem e que ele dispensa
que sejam relatados.
O próprio Mario de Andrade em seu “Prefácio Interessantíssimo”comenta que o poeta tem que ter uma postura
inconsciente e inesperada ao compor sua obra, tem que dar liberdade à impulsão
lírica :
“ Quando sinto a impulsão lírica escrevo sem pensar o que o meu inconsciente me grita. Penso depois ...
“ Quando sinto a impulsão lírica escrevo sem pensar o que o meu inconsciente me grita. Penso depois ...
Manuel Bandeira defende a
necessidade da “impulsão
lírica” que Mário de Andrade
comenta ; só que utiliza a negação aos valores puristas de composição para
afirmar a necessidade de uma poética de liberdade. Critica os procedimentos
mecânicos adotados pelos seguidores de uma poética de ordem . Os puristas são
tratados com tom áspero e demolidor :
“Abaixo os puristas...”
“Abaixo os puristas...”
Convém salientar que a atitude de
Bandeira utilizada em todo o poema para ironizar os valores estéticos , que
destroem a originalidade , é recorrer a estereótipos que limitam a criação
poética , que se caracterizam por racionais, burocráticos, bajulatórios e
formais. “Estou
farto (....) do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao sr. Diretor ...”. O poeta utiliza uma personagem tipicamente
modernista, protagonista das cidades : a figura do funcionário público que trabalha
em um ambiente burocrático e que apresenta em seu cotidiano uma série de
formalidades que devem ser cumpridas como livro de ponto , expediente rígido e
protocolo . Este tipo de lirismo é cada vez mais parodiado quando Bandeira diz
que ainda é um lirismo de “manifestações
de apreço ao sr. Diretor” . Esta
última expressão carrega uma carga de humor e fornece uma característica
bastante comum do desenvolvimento histórico do Brasil , que é o clientelismo
político , cujos cargos públicos são conseguidos e/ou mantidos em troca de
favores , votos recebidos e bajulações ao “sr. Diretor”. Este lirismo condenado
por Bandeira é justamente aquele cujo indivíduo prefere ter uma posição de
subalternidade , de bajulação à ordem vigente e de obediência à máquina burocratizante
a ter como centro motivador a si mesmo.
Outra estética que Bandeira
ironiza no poema é a romântica: o lirismo namorador, político, raquítico e
sifilítico. Ao utilizar as formas adjetivas citadas , o poeta caracteriza os
principais aspectos abordados pelos poetas românticos e com a forma verbal
reafirma novamente que está farto deste tipo de lirismo também.
- Namorador : amor extremo e idealizado e sentimentalismo. - Político : amor à Pátria e o engajamento político dos poetas - Raquítico e sifilítico: o apego à solidão, ao ambiente noturno, ao “mal do século romântico” que os deixam em um estado doentio, debilitado.
- Namorador : amor extremo e idealizado e sentimentalismo. - Político : amor à Pátria e o engajamento político dos poetas - Raquítico e sifilítico: o apego à solidão, ao ambiente noturno, ao “mal do século romântico” que os deixam em um estado doentio, debilitado.
No próximo post, a parte 2 de Poética com os
comentários sobre o lirismo libertador.
Inté!
Inté!
30/10/2024 – 20:10Hs
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